Não fala palavrão, caralho

Quatro garotos, não mais que onze anos cada, entram no elevador. A porta está fechando, acelero os passos e também entro.

- Tio, qual o seu andar?

A ansiedade por poder apertar mais botões do que o legalmente permitido é visível, praticamente gritante nos olhos do garoto.

- Décimo primeiro.

Pego meu celular, procedimento padrão para não ter que interagir socialmente. Algo estranho está acontecendo no elevador. Cada garoto ocupa um dos vértices do espaço, e eu sou obrigado a ficar no meio. Um deles diz:

- Elevador só tem três cantos!

E procede a dar soquinhos no braço de um garoto em um dos cantos. Eu intervenho, claro.

- O certo é “elevador só tem quatro cantos”, caras.

Antes que eu possa fazer qualquer coisa, cada um dos garotos já me deu um soco no braço. Dou risada alto, talvez alto demais? Os meninos param. Eu pergunto pro líder da minimatilha:

- Não dá pra brincar de elevador só tem quatro cantos em quatro pessoas né? É chato pra caralho.

Os rostos se iluminam com o palavrão e todos concordam:

- É verdade, é chato pra caralho!

Percebendo o faux pas, tento consertar:

- Ei, cês não podem sair por aí falando palavrão não, porra.

Múltiplas vozes ainda mais empolgadas:

- Mas a gente sempre fala, tio!

- É, mas não devem falar merda não.

Eles chegam ao seu andar, e descem, ainda empolgados e dando risada. A porta do elevador se fecha. Sobem créditos.

Paterna idade

Eu sempre acho curioso essas pessoas que têm orgulho do próprio pai. Tipo Neymar, que é “Neymar Jr” pra lembrar a todos que ele é fodinha, fodão é o pai dele. Eu acho curioso porque não tenho orgulho nenhum do meu pai, então esse tipo de manifestação sempre parece esquisita, ou porque não, falsa.

Mas aí você pode dizer “ah mas como você pode achar que a sua experiência pessoal se aplica ao mundo” e eu respondo que acho que se aplica porque mentira e enganação é uma constante muito mais consistente ao olhar pra realidade do que a verdade. Ora, um cara como o Neymar Jr, voltando ao exemplo, pode sentir orgulho sem perceber que é uma gratidão arraigada ao que o pai fez por ele (ou ao que ele *percebe* que o pai fez pra ele – não precisa nem ser real, entende?).

Quando você tem um pai que é um desapontamento em todo e qualquer sistema de medida (métrico, imperial, alienígena, o que for), é difícil pra caralho acreditar que existam bons pais, que eles só não estejam fingindo, tentando ser algo pra criar uma percepção na sociedade de que eles são bons pais.

Ironicamente (opa e olha lá um mau uso de ironicamente) é exatamente por conta de entender que paternidade, na nossa sociedade, é uma atividade que envolve um certo grau de propaganda, de transmissão da impressão “olha só, sou um bom pai”, que eu tento evitar ao máximo mencionar que sou pai. Isso se acentuou ainda mais depois que me separei e passei a ver e conviver muito menos com minha filha. Eu sinto que não quero ser um pai “pros outros verem”. Busco muito mais que a minha relação com minha filha seja boa, sem ligar muito em parecer adequado perante a sociedade.

E esse post, claro, é uma contradição, já que eu estou justamente colocando na internet que sou pai e que sou blasé e não fico falando como sou um pai fodão o tempo todo. Mas ninguém lê essa merda mesmo, então foda-se, né?

Eu gostei primeiro

Se você frequenta a internet, provavelmente já ouviu falar, ou testemunhou, o costume de se fazer o comentário “FIRST” (primeiro) em diversos fóruns e sites com o recurso de comentários. É fácil enxergar no costume do FIRST uma mera expressão da tradicional atividade da ‘trollagem’, mas me arrisco a dizer que há mais nisso do que parece.

Entre as inúmeras subculturas (ou ‘tribos’) modernas, uma delas parece ser a incorporação desse preceito de se ter orgulho de ser “o primeiro”. Eles são conhecidos como hipsters. Apesar de estarem amplamente descaracterizados nos dias atuais em relação às suas origens, um dos motes mais comuns associados ao ‘hipsterismo’ (isso existe?) é a constante afirmação de ter sido o primeiro a conhecer determinada banda, música, restaurante, bar, ou seja lá o que for.

Consegue enxergar comigo essa conexão? O FIRST e os hipsters gostam de ser reconhecidos por serem os primeiros a deterem um ser conhecimento, ou um nível de apreciação por algo. E em que, exatamente, eles são diferentes de uma grande parte das pessoas? Quase nunca teve vontade de dizer, ou já disse, ter sido o primeiro a gostar de algo em seu círculo social, a ter conhecido algo antes de ter se tornado popular – e portanto menos valioso, menos exclusivo?

Talvez pessoas que favoreçam (in)conscientemente o “fazer parte” de uma massa amorfa.

Mas eu pelo menos nunca vi ninguém sem nem um pouquinho de FIRST ou de hipster nesse sentido. (“Mas Álvaro, isso é evidência anedotal!” Sim, é. E isso não é um tratado científico, então vá catar coquinho).

Em última instância, como podemos fugir desse desejo de ser especial, único, um “primeiro”, por assim dizer? Acho que a resposta é “Não podemos, nem devemos.” Ainda que os FIRST e os hipsters levem às últimas consequências essa necessidade de autoafirmação, a prática em si não precisa ser condenada. É importante podermos nos autoafirmar – é isso que nos torna de algum modo únicos. Como tudo na vida, ela pode ser benéfica, principalmente, como tudo na vida, se não for levada muito a sério.

Killing in the Name (Of)

Eu tenho duas memórias bastante distintas e completamente não-relacionadas que sempre ve à tona quando ouço a faixa Killing In The Name, do Rage Against the Machine.

A primeira memória vem dos anos 90, aos quais a banda, a faixa e todo um contexto histórico fazem-se correlatos. Lembro de amigos novos gritando “fuck you I won’t do what you tell me” como uma espécie de grito de guerra, uma forma de encher a boca e mandar o mundo se foder (e por consequência mandar as autoridades – pais, professores e afins – se foderem também). O ano era 1998; os amigos, eram emprestados, vinham por um amigo recém-feito, Felipe, que era originalmente colega de escola de outro amigo, Fernando. Os detalhes me escapam; mas me lembro de andarmos num bando pela Avenida Pompéia, gritando os versos da música alucinadamente, com ocasionais dedos do meio sendo exibidos para os transeuntes. O porquê? Não me recordo; nem acredito que precisávamos de um.

A segunda memória é mais recente, do final dos anos 2000. Lá pelos idos de 2009-2010, eu frequentava a DJ Club quase que toda semana. O lugar era “perfeito”: a música era previsível, boa para dançar e para curtir. Na época, eu trabalhava num hotel, e cheguei a levar colegas para lá para conhecerem o rolê. Mas o mais comum era frequentar o lugar com amigos variados, muitos deles vindos da internet; e principalmente com os housemates do #buniiito. A pista da DJ Club era nojenta, molhada, apertada, e mergulhada em luzes psicodélicas e fumaça (de cigarro, que na época era liberado, e posteriormente de máquinas de fumaça).
Foi nessa época, nesses contextos, que a música voltou a aparecer para mim. O DJ da festa que eu mais frequentava, aos sábados, costumava rodar um set de rock dos anos 90 lá pelas quatro horas da manhã. Era batata: Nirvana, Smashing Pumpkins, Pearl Jam, e aí começava uma parte mais “revoltada” ou “panqueca”, com Ramones, e às vezes até Dead Kennedys. E claro, Killing in the Name. Pelo que eu estava passando na época – um período pós-divórcio de um casamento que começara quando eu era jovem demais – a música sempre tinha uma qualidade catártica, de me permitir gritar “fuck you” a plenos pulmões, pular como um louco, sem me preocupar com o mundo ou com quem pudesse estar me vendo. Era uma forma de libertação.
O engraçado é que cheguei a ter acessos de arritmia enquanto gritava a música. Ok, talvez isso não seja tão engraçado, a sensação era bem desconfortável.

Refresco de pimenta

Os meios de comunicação comemoram, têm assunto pra mais de mês.
Os ateus comemoram, não podem ser associados ao crime e podem alfinetar os religiosos.
Os cristãos comemoram, o crime pode ser jogado nas costas do extremismo islâmico.
Os jogadores de rpg e videogame comemoram, não pode ser associados ao crime e podem alfinetar todo mundo que lembra deles por conta desse tipo de crime.
Os bancos de sangue do Rio de Janeiro comemoram, mais gente vai doar sangue em uma semana do que num ano inteiro.
O crime organizado comemora, a culpa não foi deles, embora alguém vai botar a culpa nas armas cedo ou tarde.

Quem não comemora: a mãe gritando e chorando na porta da escola ‘eu quero saber o que aconteceu com a minha filha’.
É fácil comemorar e comentar e opinionar e vociferar e esbravejar quando o assunto não tem relação com você.

Como já dizia o sábio, ‘não pisa no meu calo’.

edit: O incidente a que esse post se refere.

Pitacos pro novo filme do Batman

Então tem um filme do Batman vindo por aí. Christopher Nolan, aquele malandrinho, conseguirá nos surpreender positivamente de novo e quebrar a regra de que uma terceira iteração de uma franquia não pode ser superior à segunda, se esta for superior à primeira? (acabei de inventar essa regra, então me processe)
Todo mundo tem opiniões sobre como deveria ser o roteiro, quais personagens devem aparecer, que tipo de história ele deveria contar… enfim. Já tem rumores pela internet de interesses amorosos novos (Tália Al’Ghul?) e de que vai ter o Crocodilo (que diabos, o Mariposa Assassina não tava disponível na galeria de vilões meia-boca?). Só vou me juntar ao coro e escrever sobre o assunto também.

Tem que ter Mulher-Gato (só gatas)

Evidente que tem que ter a Mulher-Gato. Selina Kyle é uma parte muito integral do mito do Batman. E é o interesse amoroso mais clássico dele, não a mocinha inventada pro cinema né. Nada contra, ela cumpriu seu papel muito bem nos dois filmes. Mas já abriu-se espaço pro Bruce conhecer a gata.

Selina Kyle
Percebam que não precisa ser necessariamente um interesse amoroso imediato. Até porque, é a Mulher-Gato, o negócio fica muito melhor trabalhado naquela relação de perseguição e tensão sexual. No universo realista de Nolan, a personagem como apresentada em Batman Ano Um é essencialmente perfeita – uma jovem abandonada, perdida no mundo da prostituição, que opta por mudar de vida de uma maneira um tanto quanto radical. Claro, ela pode ser uma versão que passou por tudo isso, mas já está no estágio ‘ladra profissional’. O último filme deixou claro que mais e mais Gotham passará a ser assolada por crimes e criminosos fora do comum: Batman está causando isso à cidade, em última instância.
Não importa qual seja o fio condutor ou o ‘vilão principal’ da história, a Mulher-Gato pode e deve estar ali, correndo pelas beiradas, se estabelecendo para um quarto filme, ou para um papel de importância na conclusão de qualquer que seja a história.

…mas tem que ter Robin

Segurem as pedras! Não estou dizendo que tem que ter um menor de idade vestido em cores bufantes e sapato de duende, fazendo piadas de qualidade duvidosa ou qualquer outra coisa no gênero! Mas tem, sim, que começar a estabelecer a presença do Robin. Explico.
Robin é tão ou mais importante pro Batman do que todo o resto da parafernália em volta dele. Robin é a consciência do Batman, uma lembrança de pelo que ele luta, em última instância. Embora o Robin Dick Grayson seja mais famoso por até já ter aparecido no cinema e tudo mais, eu acho que o mundo de Christopher Nolan aceitaria o Robin Tim Drake como uma luva.
Tim Drake é um garoto que deduz sozinho a identidade do Batman. É um gênio do nível do Bruce, um hacker de altíssimo nível, e tem mais bolas do que todos os postadores de comentários do YouTube juntos. Isso é plausível, realista e aceitável no universo de Nolan. Consigo imaginar o garoto saindo para ‘salvar’ Bruce de alguma situação em que ele se encontraria preso ou incapacitado, com nada além de coragem e aquela furtividade adolescente que todo mundo já tentou praticar.
Quer que ele fique órfão pra aumentar o peso da história e encaixe ele melhor na história? Dá pra fazer, e muito bem. Quer que ele mantenha a família que ele conservou por um longo tempo nos quadrinhos? Também dá. E ele pode vir a colocar o uniforme só no fim do filme, ou nunca chegar a colocar, só, mais uma vez, preparar caminho para seu début como Robin num quarto filme…

Tem que estar no Universo DC

Acho que no fundo isso sim é o principal. A Marvel Studios tá mandando bem demais com esse universo cinematográfico integrado, é lindo e invejável. Não custa nada incluir a existência de Metrópolis, custa? Ou rechear com esses pequenos ovos de páscoa que levariam os fãs ao delírio, como colocar um Alan Scott?
Já existe bobagem na internet dizendo que deve haver um filme crossover entre Superman e Batman finalmente. Pensem comigo. Já tem um filme quase pronto do Lanterna Verde. Já tem planos prum filme do Flash. Quão épico seria um filme da Liga da Justiça? O trailer de DC Universe Online mostra que dá pra fazer uma história fantástica. E gostando ou não da fase do Brad Meltzer na Liga, ele poderia ser um roterista fora de série para essa história.
Pedras nos comentários, por favor.